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MARCOS VAN BASTEN ( @mkzsvan) é fotógrafo, vídeo maker e skatista local de Barbacena- MG. Suas fotos tem personalidade e retrata o dia a dia em preto e branco do seu local.
Para Amee Skate Arte é uma satisfação imensa poder colaborar com os artistas / fotógrafos da região mineira porque acreditamos na inclusão do skate & arte de diversas regiões e estilos. E o Esquilo ( Marcos) é um skatista com um estilo e personalidade única onde inspira e fomenta a arte em seu local.

Seu olhar minimalístico e sofisticado para a foto resultou na nova collab da Amee : um shape limpo e representativo.

Entrevista por João Lucas Teixeira (@joaolucasrt)
Música de @meninsk, Gabriel Menicucci – MG

Quem é o Marcos Van Basten?

Meu nome é Marcos Van, meu apelido é Esquilo, sou nascido aqui em Barbacena – MG, sou fotógrafo e videomaker, sou skatista há 15 anos e agora tive essa oportunidade de fazer o collab com a Amee.

Você é conhecido na internet por sua abordagem não-convencional do skate e utilizar a cidade forma diferente. O que te inspira nessa visão e utilização diferente da cidade?

Acho que por eu morar no interior  e em cidades maiores as coisas acontecerem mais rápido, a forma de registrar isso é produzir com o que tem, soltar material na nossa cidade e ir viajando pra fora, filmando, tirando foto com pessoas novas e ir fazendo essas conexões, sem deixar de produzir em casa. Por isso eu comecei a filmar bastante aqui, pois apesar de ser pequeno tem muita coisa pra produzir e a ideia é essa. Por menor que seja a cidade sempre tem algo pra produzir, sempre tem alguma construção nova, um pico novo, nunca não vai ter algo pra usar, a parada é enxergar o que vai ser produzido e correr atrás.

Wallride invertido – foto: João Lucas Teixeira

Nesses 15 anos de skate aqui em Barbacena você deve ter vivido muita coisa, a cidade se transformou, teve muita gente que andou de skate aqui e não anda mais, muita gente que continuou andando, como você vê essas mudanças no skate em Barbacena? Como foi andar de skate aqui?

Eu notei que de quando eu comecei a andar pra hoje em dia, eu me influenciei pelas pessoas que estavam próximas de mim andando de skate. Quando eu comecei foi por causa das pessoas que já andavam na época e em comparação com agora, tinha muito mais informação específica de skate disponível e muito mais gente começou a andar por isso. Quando eu comecei a ver os vídeos, as revistas foi através dessas pessoas que já andavam e me apresentaram. A partir daí eu fui tomando mais gosto em fazer, querendo estar junto fazendo acontecer aqui na cidade e a galera que foi chegando depois foi somando e mais pessoas começaram a produzir. Pela cidade ser do interior e ser uma cidade pequena,  sem estrutura/pista, se quisesse andar tinha que botar a mão na massa, construir os obstáculos. Por mais que tenha a pista da Rua Bahia (mini ramp tradicional de Barbacena) e o espaço no Colégio Salesiano (abre só aos finais de semana) quem quer produzir tem que colocar a cara na rua e fazer o corre de filmar, tirar uma foto por conta própria, sem esperar.

Wallride Nollie em Barbacena – Foto: João Lucas Teixeira

Barbacena já tinha produtores de conteúdo de skate quando você começou, João Paulo (JP Souza) é um exemplo, como foi ter essas pessoas produzindo ao seu lado, como você vê o trabalho dessas pessoas, na fotografia e no vídeo, e o que isso significou para sua produção hoje em dia?

O João Paulo foi primordial pro que eu carrego no meu trabalho hoje em dia né? Desde que eu comecei a andar, e eu comecei a andar de skate por causa dele, por ele ser a pessoa que estava mais perto de mim naquela época. Não só ele como o Moita (Marcelo Fidélis) e outras pessoas que já faziam vários trabalhos aqui, que foram de total influência pros dias de hoje. A vó do JP era vizinha da minha vó e como eu sempre via ele de skate, a vontade de estar andando junto com eles era muito grande, eu achava muito daora. Depois de um tempo ele começou a fotografar com a gente, ele clicava, mostrava as fotos no papel. Ficava muito daora, ver a sua foto assim, no papel, na sua mão. A partir daí começamos a filmar junto. A primeira câmera tinha uma telinha pequenininha, a gente fazia uns vídeos com ela, depois compramos uma parecida com a dele, filmamos ainda mais e depois ele comprou uma câmera pra fazer as fotos e começou a fotografar sério, e hoje virou o trabalho dele. Quando ele começou a fotografar skate, eu ainda não tinha acesso à câmera e a esse material. Depois de um tempo eu consegui comprar a minha primeira câmera e os amigos sempre influenciam né? A você achar uma linguagem para os seus dias. E até outras pessoas que gostam mesmo, que às vezes começam a fazer algo aqui em Barbacena por causa de alguma coisa que você fez anteriormente, tipo um vídeo por exemplo, que incentiva as pessoas a correrem atrás e fazerem também. Por ser uma cidade pequena, com mais pessoas fazendo coisas novas a cena vai expandindo, através de um trabalho vindo daqui, de pessoas que começaram a fazer por causa de outras.

Você acha que hoje, o seu trabalho de fotografia de rua, retratando pessoas em seus seres cotidianos é uma forma de reconhecer os esforços delas também, assim como foi no skate, demonstrar a luta diária dessas pessoas que você fotografa?

A fotografia de rua me ensinou a enxergar muita coisa nas pessoas, no dia-a-dia. Quando eu comecei a fotografar o cotidiano da rua, aqui e em outras cidades, você vê que tem uma rotina e por mais que você passe várias vezes no mesmo lugar, sempre tem algo diferente acontecendo. As pessoas estão sempre circulando, tudo acontece muito rápido e tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e depois que você passa a ver as coisas dessa forma, as pessoas e a cidade estão todas ligadas mas às vezes você passa perto de uma pessoa e eles nem notam que passou uma alguém sabe? Tem uma casa, um prédio, as pessoas que convivem ali estão ligadas, mas você não repara no todo, isso tudo encaixado. Eu comecei a observar fotografando, um ambiente, um fundo e uma pessoa junto com aquilo, tem todo um encaixe, tudo é único quando é clicado, uma foto, um vídeo, tudo em movimento. Eu comecei a me encantar cada vez mais sabe? Aqui é interior, então você vê muita gente do interior, vem pra cidade fazer alguma coisa com um visual bem interiorano, isso encaixado no meio urbano é muito representativo. Eu comecei a fazer retrato porque expressa quem as pessoas são, as características, os traços das pessoas do interior. Hoje em dia eu saio na rua e já vou observando e é um movimento natural, às vezes uma pessoa passa do meu lado e eu penso “nossa, queria muito fotografar essa pessoa!”. Eu posso não ter uma câmera mas eu tenho o celular, se eu sei que vai dar uma foto bonita eu já clico mesmo assim. Se fosse só uma foto do lugar solto é bonito, mas o todo chama muita mais atenção pra mim, assim como essa ligação das pessoas com a rua. Foi encantador aqui e todas as influências que eu tive nessa jornada. Depois de um tempo você percebe como essas influências de antigamente são presentes no dia-a-dia, pessoas que fotografam a rua, que fotografam skate, etc. Mesmo que você só foque em uma abordagem, você vê várias coisas diferentes em outras abordagens e consegue unir essas referências, trazer pros seus dias e ir adaptando as linguagens.

Senhor pelas ruas de Barbacena – foto: Marcos Van Basten

A foto que usou no seu modelo de shape lançado agora pela Amee é quase que um retrato, um momento que você capturou. Qual a história por trás desse momento?

A história dessa foto é a seguinte: a gente tava lá na Rua Bahia (praça com mini ramp tradicional de Barbacena) andando de skate e estava acontecendo um evento chamado CoreAção, com arte, música, dança e batalha de rima; como no bairro existem muitas crianças e elas gostam muito de skate, esse menino me pediu meu skate emprestado e ficou andando, de boa, gostando total assim. Ele tava adorando estar lá andando, no meio da galera do skate. Eu achei muito daora o jeito que ele tá assim sabe? Sentindo o skate, do jeito que a gente sente, de estar andando, se divertindo. Eu cliquei, revelei a foto e ela ficou guardada. Depois de um tempo a Amee me contatou e me ofereceu essa possibilidade de fazer um trabalho junto. A gente não tinha pensado em ser uma fotografia, tínhamos conversado pra ser um trampo a mão, depois de várias ideias a gente não tinha chegado em algo concreto. Aí eu pensei: porque que a gente não faz algo ligado à marca e a fotografia misturado? Pra encaixar o conceito da marca nessa foto. Eu apresentei a foto e a Tat (designer, dona da Amee) me deu a ideia de misturar o logo da marca (um coração estilizado) com a foto e ela fez desse jeito. Eu gostei muito, a ligação, o coração, o sentimento. Como se fosse a primeira vez que ele tivesse andando de skate e talvez tenha sido a primeira vez que ele andou num skate de verdade; e é isso sabe? Como o skate traz pras pessoas um sentimento, a diversão de estar ali andando, sem pensar em mais nada. Trouxe pro menino o sentimento de liberdade que o skate traz, de estar ali andando e pra mim de ter clicado o sentimento dele. Isso pra mim foi muito gratificante, agradeço a Tat, a Amee, de coração mesmo, de ter me dado a oportunidade de fazer essa somatória. Obrigado mesmo! <3

Foto original do shape lançada pela Amee Skate – foto: Marcos Van Basten

Depois de ter feito todos esses trabalhos, ter fotografado tanto tempo, estar andando de skate e trampando com skate com algo mais consolidado, o que você tá vendo pro futuro nessa caminhada?

Eu to vendo que hoje em dia tem muita gente que eu não sabia que colocou a cara na rua, que fez a gente conhecer seus trabalhos porque está fazendo o seu e fazendo chegar na gente. Tem muito skatista próximo da gente que é artista, que faz foto, que faz vídeo, se move sabe? Isso que eu quero ver cada vez mais, nossos amigos, várias pessoas se influenciando em arte, em fotografia, em música. Quero que peguem isso tudo e tragam para nós, pra conhecermos várias coisas novas, absorver e com isso as pessoas também vão se informando cada vez mais, se inspirando em outras. Pra nós é a melhor coisa, se influenciar nos nossos amigos, nas pessoas que tão fazendo. É isso que eu quero, quero ver arte, quero ver muita gente fazendo. Acho que pela informação estar chegando mais fácil pra gente, conseguimos buscar referências, pesquisar sobre as coisas; é só querer. Se você quiser que a arte esteja próxima de você, cê vai absorver da melhor forma. A arte é feita pra fazer bem pra gente, nossos dias, tudo. Por isso que eu digo que a fotografia, o vídeo, a música se ligados a tudo nos seus dias, você vai viver até enxergando de outra forma, vai andar da rua e talvez reparar em algo que nunca reparou. Algo que tava ali a tanto tempo e você nunca enxergou.

Arte pra ser vivida na rua! Malabarista em Barbacena-MG – foto: Marcos Van Basten

Pra finalizar, o que você gostaria de dizer pra pessoas que estão tomando esse rumo da arte, que estão descobrindo suas trajetórias?

Um conselho que eu daria é que todo mundo tem tudo pra fazer com o que tem nas mãos, equipamento é o de menos. Você consegue fazer uma fotografia, um vídeo com o seu celular por exemplo. O que não pode é desistir, tem que estar sempre se esforçando e querendo fazer. Se você acreditar em você, se você gosta daquilo que está fazendo e acredita que aquilo é bom, segue seu olhar naquilo e vai fazendo, fazendo, fazendo. Ouça o que as pessoas que são importantes pra você tem a dizer, você pode se basear nisso pra te ajudar a melhorar cada vez mais. Com isso cada dia mais você vai conseguindo se encaixar e achar sua linguagem. Não desista de você, acredite no seu trabalho e corre atrás! Se você acreditar em você, naturalmente seu trabalho vai chegar em outras pessoas e elas vão se identificar com seu trabalho. O mais importante não é o equipamento, mas o sentimento e a mensagem que você quer passar e isso que vai importar no final das contas.

Sérgio Santoro em seu nose manual clássico nas ruas do Rio de Janeiro – foto: Marcos Van Basten

Muito obrigado pela oportunidade de estar aqui, parabéns pelo seu trabalho, por estar produzindo foto e vídeo e apoiando as pessoas daqui de Barbacena e de outros lugares. Continue assim que vai dar tudo certo pra você!

Obrigado você por colar aqui, eu gostaria de agradecer a Amee, agradecer as marcas que acreditam e apostam nos skatistas e artistas, que valorizam o trabalho dessas pessoas. Que veem a importância disso pra marca e pro skate como um todo. Marcas que te dão espaço, pra te ouvir, assim como a Amee fez comigo. Eu tive a ideia junto com ela e o espaço que ela deu pra mim, pro Flávio Grão (outro artista convidado dessa série de shapes da marca), de acreditar sabe? Às vezes você tem a ideia, você quer passar, mas não tem quem te ouça, até você chegar nessas pessoas é muito difícil, pra gente que mora no interior sem você conhecer em pessoa. Eu só tenho a agradecer a Amee, essas marcas e pessoas que me deram essa oportunidade, com certeza vai ficar registrado pro resto da vida.

Marcos em sua casa – foto: João Lucas Teixeira
assinatura no shape da Amee
shape Amee

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video por: João Lucas Texeira

AMEE.

shapes: www.ameeloja.com.br

Primeiramente esperamos encontrar você e todos da sua família
muito bem com saúde, paz mental e
fortes para passarem por essa turbulência que estamos vivendo.
Sabemos que não é fácil mas também sabemos que tudo esta dentro de nós : seja positivo e se cuida.
Agora é tempo de caridade, limpeza interna, discernimento e muito amor.
Amee e tolere .
Tudo vai passar e continuaremos firmes.

Estamos aqui para passar um pouco de entretenimento com artes, skate e produtos exclusivos feito com muito carinho e cuidado.
Sempre estaremos a disposição.
AMEE

 

Collab shape Amee
Novo shape com a arte do Flávio Grão.

O artista plástico Flávio Grão fez uma arte exclusiva para estampar o novo shape da Amee.
A entrevista sobre essa collab e de como foi o processo de criação esta disponível aqui.

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Por: Amee Skate

A Amee tem uma grande satisfação em fazer essa parceria com o artista e amigo Flavio Grão. Demorou um pouco para acontecer mas hoje ele faz parte da nossa historia com essa pintura exclusiva e muito bonita que estampa os shapes da marca.


Quem é o Grão?

Eu sou Flavio Grão, eu cresci em São Bernardo do Campo – SP, tenho 44 anos, sou educador e artista plástico.

 

Qual sua relação com o skate e com a arte?

Eu cresci em SBC, lá tem a pista clássica, que já foi até reformada algumas vezes, e foi um período em que o skate estava em sua forma mais agressiva. Na década de 1990 eu andava e as artes do skate me chamavam muito a atenção, foi o skate que me apresentou o punk rock que é uma cultura que me ensinou muito através do Do It Yourself (Faça você mesmo).Eu desenho desde muito pequeno mas foi quando eu comecei a frequentar o cenário do punk e do hardcore que eu comecei a ver uma função para a minha arte. Eu comecei a ser chamado pra usar a artes que eu fazia no meu caderno para estampar a capa de um cd, uma camiseta, ou fazer um cartaz de banda,etc. A primeira função que minha arte teve foi a serviço da música e isso continua até hoje.

 

cartaz de autoria do artista para um show da Chocolate Diesel, na qual Grão era Guitarrista na década de 1990

 

 Quando você fala de um skate agressivo e da própria estética apresentada por esses shapes na época, você acha que hoje no momento em que que vivemos, elas ainda teriam o mesmo efeito?

Eu acho que o skate nos anos 1990 era mais transgressor e de certa forma suas artes também representavam isso. Hoje em dia o skate tá por todo canto, isso é positivo porque você tem acesso a várias formas de arte, de shapes e muitos skatistas acabam se expressando através da arte. O skate tem essa questão da atitude e skatistas vêm a possibilidade de se expressar através da música, desenho e da pintura. Hoje eu não acho que as estéticas do skate não estão ligadas a uma coisa só, nos anos 90 estava muito ligado a agressividade, as caveiras, etc. Hoje em dia tem espaço para praticamente tudo.

 

  O seu contato com o skate quando você era mais novo, que te apresentou esse caminho pautado pela liberdade e por essa forma lúdica de encarar a cidade, contribuiu de alguma forma pro seus processos criação hoje?

Acho que foram duas coisas, o skate e o punk rock. Primeiro o skate por essa outra percepção da cidade e se deslocar, encontrar grupos de diferentes bairros e classes sociais. O skate tem essa característica da congregação, que me fez conhecer a cidade de uma outra forma. Lançar possibilidades e se desafiar, de encarar as coisas de maneira diferente. Acho que essa subversão que o skate traz também pode ser aplicada para a arte.

 

Você, como arte educador, advindo desses movimentos, como foi fazer essa transição para a prática como educador?

Eu me tornei educador dando aula no movimento punk, eu vi que queria trabalhar com liberdade e trabalhar com pessoas, a reciprocidade. O skate traz uma percepção diferente da cidade, consciente e inconscientemente. Você olha cidade com outros olhos, primeiro porque pode fazer interações lúdicas e também como um desafio. Acho que isso faz com que skatistas encarem a cidade e sociedade de uma forma diferente, porque andar de skate é criar em cima da cidade, eu vejo que muitos skatistas acabam tem e manifestam essa capacidade criadora, se envolvem com música, fazem arte, indo por esse caminho artístico. O skate é uma mola propulsora da criatividade.

crianças realizam dinâmica de pintura em uma aula ministrada por Grão

 

  Vendo que o skate como método de empoderamento, é uma ferramenta útil na educação? Você já usou o skate ou coisas advindas do skate no seu processo como educador?

Não porque eu creio que o skate é livre, acima de tudo, mas ele tem um componente que eu não diria exatamente educativo mas de sociabilidade, através dessa qualidade de congregação, de união de pessoas de diferentes lugares, se reunirem para andar de skate. Eu vejo sim a questão do empoderamento, da criança/jovem que começa a andar muito cedo, superar seus próprios desafios, a se deslocar pela cidade mas creio que ele não se encaixa no sistema educacional. Ele é sim educativo, talvez até auto-educativo.

 

  Você é ilustrador e já realizou vários trabalhos como zines de narrativa, capas de livros e cds. Como anda essa produção dessas obras? 

Eu estou mais focado na pintura agora. Eu tenho sorte de ser convidado para fazer um estilo de arte que eu já faço em termos de estética, e de fazer coisas que eu consumo né? Eu gosto muito, tenho sorte das pessoas respeitarem o tipo de desenho que eu tenho e confiarem no meu trabalho.

obra do artista estampa o disco “Ponto Cego” da banda de harcore Dead Fish lançado em 2019

 

  Como aconteceu esse convite da Amee para fazer essa colaboração do shape?

Eu conheço a Tat (criadora da Amee skate & arte) há muito tempo. Nos anos 90 ela foi uma das primeira meninas que eu conheci que andavam de skate. Nós somos da mesma geração, tínhamos amigos em comum, ela colava nos shows da minha banda (Chocolate Diesel, img 2) é uma história bem longa. Nós vimos essa possibilidade de fazer esse shape junto e eu já conhecia os outros shapes da marca, vejo que ela tem essa questão de dar liberdade para uma arte do shape, acho isso muito bacana porque vira um objeto colecionável mas também feito para ser usado.

arte original do shape, látex sobre papel

 

  No processo de produção da ilustração do shape, e de representação das crianças no shape por exemplo, de onde vieram essas inspirações e o que foi/é essa arte pra você?

Eu pensei muito na questão lúdica da cidade e no arquétipo urbano que o skatista acaba virando, daquela menina ou menino empoderado, que circula se desafiando pela cidade. Os rostos deles não são mostrados porque skatista é um arquétipo da cidade, grandes ou pequenas, sempre existe aquela figura que está sempre circulando, desafiando a arquitetura urbana, o banco vira um obstáculo, etc. Sempre estive pensando nisso, dessa forma lúdica e desse pensamento, muitas pessoas não percebem, mas é uma forma de pensar o mundo de vê-lo de outra perspectiva. 

A menina no topo porque o skate é uma atividade que propicia muito esse empoderamento feminino, de certa forma a criação das mulheres tradicional é pensada para que ela não saia de casa e o skate traz essa questão do movimento, do expandir, então eu achei fundamental que a figura principal da arte fosse uma mulher.

Com relação às cores, eu usei tinta látex, tinta de parede de cores bem populares e familiares à prática do skate, que a gente vê na rua cotidianamente, porque o skate é segunda atividade atlética mais praticada no Brasil e isso faz com relativamente comum vê-la pelas ruas participando daquele ambiente urbano.

 

   Em que momento para o Grão aquela arte foi feita? O artista que começou aquela arte é o mesmo de hoje?

A gente sempre muda né, mas naquela época eu estava fazendo uma pesquisa de cores, América Latina, na arte do shape isso fica mais explícito, mas essas referências continuam no meu trabalho. A gente nunca é a mesma pessoa, mas eu continuo trilhando esse mesmo caminho.

 

  Na sua produção você utiliza muitos cadernos, sketchbooks, são coisas dinâmicas que podem ser levadas e trabalhadas em qualquer lugar, porque essa escolha?

O sketchbook é como um diário pra mim. Um lugar de registros conscientes, escritas e através do desenho, muitas informações simbólicas e inconscientes. É uma produção que eu levo muito a sério, eu vou desenhando e vai criando uma narrativa que muitas vezes eu só vou entender depois. É um modo de transformar minha vida cotidiana em arte, muitas vezes eu vejo que um desenho que eu fiz no caderno as vezes vira um quadro, é uma produção que se movimenta constantemente.

esboços originais da arte do shape lançado pela Amee

esboços originais da arte do shape lançado pela Amee

 

  Como o artista em você percebe essa arte utilitária, que é além de estampar algo ela também vai passar pelo uso cotidiano, no caso do shape por exemplo?

Eu acho que o shape tem duas coisas, tem a questão de que é uma obra colecionável e uma obra que vai ser destruída né? Quando você faz/compra um shape com uma arte que você acha bonita, deve ser uma contradição muito grande pra quem compra. O shape é um modo de arte urbana muito efêmero assim, é algo que vai ser feito para ser desgastado. As vezes eu fico pensando, talvez se a pessoa gosta muito da arte ela pode compra um shape pra colocar na parede e outro pra destruir hahaha

 

  Você já tinha feito outras artes de shapes antes?

Essa é a segunda arte. Nos anos 90 eu fiz uma série inteira, com 8 shapes e agora to voltando com esse. Da primeira vez eu tinha um personagem em comum e tinha que adaptar o personagem pra cada skatista de acordo com suas características e coisas que eles gostavam e agora é uma arte que eu fiz de maneira bem independente, de certa forma é um respeito pela arte por si só.

 

   O skate como arte trabalha com arte sensível, sentir nas mão, sentir as texturas com os pés e sua produção é majoritariamente manual. A sua escolha por produzir arte manualmente é de manter esse aspecto sensível e manter essa tradição da arte feita com as próprias mãos? 

Se eu fizer um resgate, eu comecei fazendo arte manualmente, aí veio a arte digital, eu não migrei pra arte digital porque a princípio eu não quis aprender e depois eu vi que o que eu fazia tinha muito significado, pelo fato de ser manual e porque era um diferencial. Eu acabei me mantendo na arte manual mas eu creio que a arte digital é muito importante para quem trabalha com velocidade. Pra mim faz sentido fazer uma arte manual porque tem ligação com o gesto, o inconsciente e a velocidade mais lenta também contribui pra você pensar de uma outra forma para o que está produzindo. No começo era o que eu fazia, depois eu não corri atrás e acabou sendo o que eu faço até hoje haha

 

  Você acha que hoje no tempo em que vivemos, no qual tudo é acelerado, e a gente não consegue lidar com a velocidade em que as coisas acontecem, deveríamos ter mais contato com a arte manual e ter um tempo diferente mais devagar do fazer?

Tem uma teoria da educação que fala que para o conhecimento novo ser absorvido ele tem que se estabilizar aos conhecimentos anteriores e só depois ele vai se encaixar naquele sistema, como se pegasse um livro e encaixasse numa estante cheia de outros livros, primeiro ele se estabiliza e depois você encaixa, classifica ele. Para mim o tempo da contemplação é muito importante, de encaixar, de absorver e talvez se apropriar daquele novo conhecimento.  Eu cresci no analógico e não sei como é para alguém que nasceu no digital. Pra mim isso é muito importante mas é difícil dizer como as outras pessoas lidam com isso.

 

Obrigado por ter nos recebido em sua casa, por nos conceder essa entrevista e parabéns pelo seu trabalho. Para fechar, que conselho você daria para pessoas que buscam seguir no caminho da arte hoje?

 

Muito obrigado vocês, foi muito massa recebê-los aqui. E o conselho é faça o que você gosta, arte ou skate, pelo motivo mais nobre que é o simples gostar de fazer. Fazer para buscar dinheiro, fama ou vaidade já é um desvio do princípio, arte é processo e não produto. Fazer algo nos dias de hoje sem esperar reconhecimento monetário pode ser um belo caminho para uma evolução pessoal, isso são coisas que a arte e o skate lhe oferecem.

Grão em seu ateliê em sua casa

 

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Texto, fotos e edição do video:
Joao Lucas Teixera ( @joaolucasrt )

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